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3.7.08

Let the blind lead those who can see but cannot feel...


"I walked outside

I could not cry

I don't know
why "

É assim a letra do tema “Recent Bedroom” do último e único álbum de Atlas Sound.

Let the blind lead those who can see but cannot feel” é o nome do LP editado este ano pelo co-fundador dos Deerhunter. Apesar de este ser um nome nada fácil de pronunciar radiofonicamente, reflecte muito do trabalho do músico.


Ao ouvir o álbum com atenção podemos fechar os olhos, tentando encontrar refúgio nos sons chuvosos e silenciosos de Bradford James Cox. Estes sons, algo melancólicos, algo metálicos transportam-nos para janelas de comboios regionais em dias de chuva. O reflexo do nosso nariz de perfil no vidro molhado, um pouco distorcido, parece combinar bem com o som do comboio que arranha os carris da viagem cega. Num misto de segurança e dor é assim que a musica de Atlas Sound dança desengonçadamente no estômago, chorando sem lágrimas, num grito mudo.


"Let the Blind Lead Those Who See But Cannot Feel" retrata uma fase da vida de Bradford Cox quando este foi internado num hospital durante todo um Verão da sua adolescência, devido a uma doença de ossos degenerativa. O isolamento das paredes brancas do hospital sente-se neste álbum, que compôs sozinho com poucos instrumentos e o seu laptop.


Com influências como Robert Wyatt, Everly Brothers, Suicide, Laurie Anderson, The Breeders, Robin Guthrie, Casino Versus Japan, Stereolab, William Voight, Sparks, S.E. Rogie, Nuno Cannavaro, Piere Henry, Raymond Scott, Roy Orbison, este é um disco a não perder.


Neste marasmo de ideias quase sem sentido é de destacar duas musicas: Recent Bedroom e River Card.

24.2.08

Destaque da Semana (25 a 29/2/2008)

Sea Lion, Ruby Suns (2008, Memphis Industries)



ruby suns - sea lion



Talvez seja do alargamento das autoestradas da informação, ou talvez a equipa que rodou os filmes da série Lord of the Rings tivesse bom gosto musical e se tenha esquecido na Nova Zelândia de discos trazidos de outros sítios, influenciando assim a sensibilidade pop de todo um país (hipótese porventura menos provável). A verdade é que a Nova Zelândia, apesar de não dispôr de uma história rica em música pop conhecida fora das suas fronteiras, começou recentemente a exportar projectos como os Skallander, ou estes Ruby Suns, o destaque das emissões desta semana de Pop e Circunstância.

Em todo o caso, os Ruby Suns são mais do que uma banda da Nova Zelândia. Se o mundo é uma aldeia, eles fazem questão de a cruzar de um lado ao outro sempre que possível: assim se explica este colectivo. Caso contrário, como seria possível que Ryan McPhun se lembrasse de sair de Los Angeles para Auckland, para formar uma banda que mistura sons de três continentes?

Sea Lion é, sem dúvida, nome apropriado para o segundo trabalho dos Ruby Suns, no qual Ryan McPhun, Amee Robinson e Imogen Taylor nos levam em animada viagem subaquática com ponto de origem no Pacífico Sul (Tane Mahuta, cantada em Maori), escalas diversas numa África porventura demasiado estilizada, de alguma forma próxima da imaginada pelos Vampire Weekend, (em Oh Mojave ou em Kenya Dig It?, por exemplo) e destino apontado ao nevoeiro dream-pop de uns Galaxie500 (Blue Penguin ou Remember).

Os antípodas ao alcance de todos os ouvidos, de Segunda a Sexta feira, entre as 11h e as 13h, no éter dos 107.9, ou através de http://www.ruc.pt/.

10.2.08

Destaques da Semana (11/02/2008 - 15/02/2008)

Numa semana especial, com direito a passatempo e tudo, o Pop & Circunstância destaca dois registos de 2007! A antever o concerto que traz os Ola Podrida e Magic Arm a Coimbra, passamos os ouvidos pelo álbum do primeiro, Ola Podrida, e o EP do segundo, Outdoor Games. Para ouvir com atenção de segunda a sexta, entre as 11h e as 13h!


Ola Podrida - Ola Podrida
Ola Podrida - Ola Podrida [Plug Research, 2007]

Fly over America.
Um vasto território que se perde de vista, percorrido pelas personagens que habitam as composições de David Wingo, presas às suas próprias frustrações, incapazes de partir. As suas pequenas histórias foram traçadas ao longo dos anos na cidade de Austin, quando ainda dividia os seus dias entre o balcão de um clube de vídeo e a composição da banda sonora de George Washington, filme realizado pelo seu amigo David Gordon Greene. De capital relevância no surgimento dos Ola Podrida, as colaborações entre ambos sucederam-se, conferindo hoje uma forte marca cinematográfica à lírica de David Wingo.
Em 2007, após ter-se mudado para Nova Iorque, edita pela Plug Research o seu primeiro trabalho enquanto Ola Podrida, projecto de indie folk que conta com a colaboração de vários músicos, entre os quais Andrew Kenny dos American Analog Set. Bastante aclamado pela crítica, que o compara a Iron & Wine e Sufjan Stevens, transpõe para o presente a tradição da folk norte americana, cujo despojamento encerra uma sonoridade acústica, pontuada por banjos, bateria e pela voz de David Wingo, num registo de storyteller que não perdeu, após partir para a grande metrópole…



Magic Arm - Outdoor Games EP
Magic Arm - Outdoor Games EP [Switchflicker, 2007]

Há alguns meses, o grupo Grizzly Bear, através do seu site oficial, chamava à atenção para um projecto denominado Magic Arm, reputando-o como stunning.
Pouco se sabe hoje sobre Marc Rigelsford, o jovem compositor britânico que assina enquanto Magic Arm. Oriundo de Manchester, editou em 2007 um EP intitulado Outdoor Games que, para além de ter chamado a atenção da reputada banda nova iorquina, também recolheu críticas favoráveis em publicações como o The Guardian.
Na antecâmara do seu primeiro longa duração, traz-nos uma indie pop dominada por elementos electrónicos, construída em laboratório, mas de forma alguma fria. Cada faixa é portadora do legado musical de Manchester, e não poucas vezes são convocados os Stone Roses ou os Happy Mondays. As vocalizações de Rigelsford acompanham a métrica dos instrumentos usados, recorrendo a máquinas de escrever, relógios e teclados vintage.
Em Magic Arm tudo é meticulosamente programado, num crescendo cadenciado e dirigido por um só homem.

26.11.07

Destaque da Semana (26/11/2007 - 30/11/2007)

Comicopera, Robert Wyatt (2007, Domino)


Comicopera

Robert Wyatt é uma lenda viva da música britânica.Nascido em Bristol, no ano de 1945, conta com uma extensíssima obra, tanto a solo como enquanto parte dos Soft Machine ou dos Matching Mole. O seu mais recente trabalho, o primeiro editado pela Domino dá pelo nome de "Comicopera" e é o último destaque de Pop e Circunstância neste Novembro.


Robert Wyatt

Robert Wyatt foi, desde sempre, um artista politizado. Como tal, não vê nos dias de hoje muitos motivos para rir. Talvez por isso tenha feito um álbum como Comicopera que, mais que um álbum de intervenção com um título sarcástico, é a transformação do desencanto num manifesto em três actos que, não sendo espaços estanques, dão a Wyatt e convidados (destaquem-se Brian Eno, Phil Manzanera ou Anja Garbarek) o à-vontade necessário para dissecar meticulosamente os diversos níveis desse sentimento.

O primeiro acto de Comicopera ("Lost in Noise"), lida com a insatisfação pessoal e com sentimentos de perda com que Wyatt se tem vindo a familiarizar cada vez mais desde 1973, quando se viu permanentemente preso a uma cadeira de rodas, na sequência de uma queda de um terceiro andar. É em "Lost in Noise" que se podem encontrar as músicas mais intimistas do álbum, caso da reinterpretação de Stay Tuned, na companhia da sua autora, Anja Garbarek, de Just as You Are com a brasileira Mônica Vasconcelos, ou a pérola que é You, You.

Se em "Lost in Noise" Wyatt está virado para dentro, em "The Here and the Now" olha para o mundo que o rodeia com um olhar crítico e por vezes corrosivo, dando atenção especial à temática da guerra e a sua identificação com o espaço anglófono. Se a primeira música deste segundo acto se chama A Beautiful Peace e sugere um passeio pelo countryside britânico, a verdade é que os seus últimos versos, "it's a beautiful day/but not here", traduzem a mudança de tom no álbum, que vai substituindo gradualmente a melancolia pela revolta, materializada no conjunto formado por A Beautiful War e Out of the Blue, em que Wyatt assume primeiro a personagem de um piloto de um bombardeiro prestes a destruir uma povoação, para logo a seguir descer à terra e dar voz à população que vê as suas casas destruídas sem sequer entender porquê.

"You've planted all your everlasting hatred in my heart" é a última fala que Robert Wyatt atribui aos bombardeados de Out of the Blue (a última faixa de "The Here and the Now"), e é também a última frase em inglês que canta em Comicopera, uma vez que o último acto, "Away with the Fairies", representa a fuga do músico para fora do espaço anglófono, semeador de guerras. Aqui, canta em espanhol (oiça-se Canción de Julieta, versão musicada para um poema de Federico García Lorca) e em italiano, línguas representativas de um espaço de paz onde se tenta refugiar, mesmo esquecendo que tanto a Espanha como a Itália foram apoiantes da guerra contra a qual se revolta. Em "Away With the Fairies", estão canções menos coesas que no resto do álbum (Fragment), até pelas infiltrações de ritmos mediterrânicos e caribenhos (a versão para o clássico cubano Hasta Siempre, Comandante), que se vão espreguiçando docemente, dando final ao álbum.


Comicopera deslumbra pela elegância e subtileza que Robert Wyatt espalha nas suas inquietações e, aos 62 anos, é um testemunho da vitalidade do multi-instrumentista britânico. Descobrir este álbum, por sua vez, é motivo para ligar o rádio nos 107.9, todos os dias desta semana, entre as 11h e as 13h.