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21.3.08

Caribou - Santiago Alquimista (13.3.2008)


O caminho a pé da estação de metro Baixa-Chiado até ao edifício da Junta de Freguesia de Santiago não é fácil de fazer. As velhas vielas e escadinhas lisboetas não se compadecem com pulmões gastos, mas era esse o caminho a fazer para assistir ao concerto de Caribou no passado dia 12, e ainda houve bastante gente a dispor-se a ofegar um pouco para ver o projecto de Dan Snaith com os próprios olhos/ouvidos. Aliás, já bastante antes do concerto havia bastante gente no pequeno (mas catita!) espaço do Santiago Alquimista, emprestando-lhe um certo calor humano enquanto se ouvia Person Pitch e se esperava.

O concerto propriamente dito começou passada pouco mais de meia-hora das 22h que constavam nos bilhetes, com Dan Snaith a entrar de meias (brancas!) e acompanhado pelos calçados Ryan Smith, Brad Webber e Andy Lloyd. Sem contemplações, devaneios ou explicações atacaram uma enérgica Sundial, bastante mais barulhenta que a versão de estúdio, dando o mote para uma actuação que mais vezes derivou para devaneios controlados a saber a Can ou a Neu! do que para a "indietrónica-psicadélica-pastoral" que marca o último Andorra. Este não foi, aliás, o único território que os canadianos pisaram, preferindo deitar mão a pitadas de álbuns anteriores (The Milk of Human Kindness e Up in Flames, dos tempos pré-processo judicial que fez o vulcão mudar de nome para alce).
setlist
setlist roubada, com a conivência dos roadies


Quase todo o concerto decorreu sem interrupções ou grandes conversas, sublinhado com projecções que, se não acrescentavam muito ao espectáculo, criavam efeitos engraçados nas costas dos que estavam no andar inferior do espaço. Enquanto isso, Dan Snaith andava num verdadeiro lufa-lufa, alternando entre a guitarra, a bateria, teclados diversos e (até) a flauta, contribuindo para uma dinâmica "kraut" acelerada que fez ligação directa a várias ancas meneantes, mas que acolheram entusiasticamente o momento mais "slow" do concerto, a dulcíssima She's the One (tudo o que uma certa banda francesa alguma vez sonhava ter composto). Depois, voltaram os ritmos mais elevados, com destaque natural para a belíssima Twins, já quase a fechar a actuação.

Em encore, depois de uma curtíssima pausa para respirar e não mais de quatro palavras de Dan Snaith, apareceram Hello Hammerheads e o final catártico com A Final Warning, com os quatro membros da banda a atirarem-se às percursões com todas as energias que lhes sobravam. Foi um final intenso para uma actuação inesperada mas conseguida de Dan Snaith e companhia nessa noite do Santiago Alquimista.

O caminho de regresso foi bem mais fácil de se fazer...

José Afonso Biscaia

9.3.08

Música do tempo em que os homens usavam chapéu (e as meninas saia pelo joelho) (Vagabond Opera - CAE, Figueira da Foz - 07.03.2008)

O Grande Auditório do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz foi, de facto, demasiado grande para os Vagabond Opera, banda de Portland, pela primeira vez no nosso país. Estaria cerca de um quarto da sua capacidade total ocupada, maioritariamente por casais de meia-idade, bem vestidos e, certamente, à espera de um “agradável serão”…

Foi ainda com dúvidas sobre se o que teria atraído mais as pessoas ao concerto tinha sido a mistura de Cabaret, Tango e Opera praticada pelos Vagabond Opera, se a sua aparição recente no programa da Fátima Lopes, foi ainda com dúvidas, dizia, que a luz se apagou. Um foco atingiu o palco e assim que a menina Lesley Kernochan colocou uma moedinha num balde e deu a uma manivela imaginária, o espectáculo começou.

Vagabond Opera
Bruno Raposo

Mais fotografias
aqui.

Em trajes que, não fosse o seu excelente estado de conservação, poderiam ter quase um século, surgiram um cantor de ópera acordionista e mestre de cerimónias, um saxofonista dançarino e cantor, uma saxofonista e cantora lírica com agudos impossíveis que também tocava serrote, um virtuoso violoncelista aparentemente alheado do mundo em movimentos deslizantes como quem apaga cigarros, um contrabaixista com cara de bom rapaz e um baterista que falava português com sotaque do Brasil.

Foi este sexteto que durante hora e meia conseguiu misturar nomes como Édith Piaf, Charlie Chaplin e Jacques Brel, lugares como o Mississipi, Itália e Macedónia e estilos como a valsa, a chanson française e música cigana.

O espectáculo vinha "enlatado e pronto a consumir", em tudo o que isso possa ter de bom e de mau. Algo nervosos e presos na primeira metade do concerto, foram aos poucos mexendo-se mais naturalmente, contando algumas historietas e criando empatia com o público, o que foi apenas totalmente conseguido no encore. Conseguiram mesmo levar à histeria pelo menos 3 meninas que, com grande probabilidade, se chamariam Rita, Joana e Teresinha.

Depois de abandonar o palco a banda deve ter desatado a correr pelo backstage pois ao sairmos do Auditório já estava a vender os seus dois discos editados até ao momento "Get On The Train", de 2003, e "Vagabond Opera", de 2006, bem como a dar alguns autógrafos e a tirar fotografias com quem assim quisesse.

Foi aí que nos confessaram que tinham feito, pela primeira vez, playback no programa da Fátima Lopes e que tinham ficado muito impressionados tanto com o ventríloquo residente no programa como com o senhor que antes tinha estado a falar sobre hemorróidas.

Enfim, tudo bons rapazes…


Ricardo Jerónimo

24.2.08

A sensualidade do rock cósmico (The Raveonettes - Santiago Alquimista - 20.02.2008)

O anúncio que se ouviu em off antes do concerto repetiu-o Sharin Foo, antes de lançar os primeiros acordes: a voz de Sune Rose Wagner estaria ausente (devido a doença) da primeira actuação ao vivo dos The Raveonettes em Portugal. Nada que impedisse a audiência, que enchia os dois pisos do Santiago Alquimista, de marcar presença nesta noite - afinal de contas, não há nada que uns pedais e uns samplers não resolvam e perder a oportunidade de ver Sharin Foo agitar-se num mini-vestido preto dobrado a missangas é quase pecado...

A entrada em palco dos dois dinamarqueses, acompanhados por Jakob Høyer, um misterioso percussionista que tomou o seu lugar atrás de uma reduzida mas eficaz bateria, fez-se logo atacando o novo álbum "Lust Lust Lust". Hallucinations acordou a assistência (que esperou um pouco para lá da hora marcada) e desde início se viram os pés a bater e as cabeças a ondear. Conquistada de início, sem necessidade de grandes conversas, a plateia nao teve de esperar muito por ouvir aquele que, para muitos, é o grande tema do quarto álbum da banda - Dead Sound surgiu quase naturalmente e percebeu-se que a mudança para tons mais "minimais" em disco não se nota assim tanto ao vivo.

A hora de concerto continuou com uma visita guiada à galeria de álbuns dos The Raveonettes, com a primeira grande e sentida ovação a contemplar That Great Love Sound. Sharin Foo fazia as honras e, a cada música que passava, parecia estar a gerar-se um qualquer feitiço em palco - a cortina que ondulava por detrás dos três músicos cambiava de cor tal como o som saído da guitarra, baixo e bateria. A viagem até "Pretty In Black" trouxe um Here Comes Mary que abrandou o ritmo e adensou a atmosfera semi-fumadora da sala. Seguiram-se momentos que pediam uma bola de espelhos e um baile de finalistas algures nuns anos 50 nos Estados Unidos - o embalo regressou com mais um regresso a "Pretty In Black".
Mas foi também esse álbum o responsável por despertar de novo o público!

The jukebox churns out songs about sex...

A cortina mudou de novo - algo lascivo invadiu o palco. A passagem por temas do já antigo "Whip It On" fez perceber que ali estava uma banda que tanto conseguia ser encantatória como explosiva. E doce! A polémica em torno do vídeo de You Want The Candy pode ter passado ao lado de muitos dos que estavam no Santiago Alquimista, mas a energia do tema deixou alguns a pensar em quantos pecados mortais seriam capazes de cometer naquela noite...

Houve tempo para tudo, para viajar a todos os registos, para ouvir quase todo o novo álbum, para descarregar a adrenalina, para ouvir... French Disco, a intrusa cover para o tema dos Stereolab! Logo depois, a hipnótica Aly, Walk With Me fez com que, a espaços, Sune Rose Wagner e Sharin Foo se virassem de costas para o público agitando freneticamente os braços de encontro às cordas do baixo e da guitarra - uma masturbação sincronizada que levou o concerto até à primeira pausa.

O encore, a pedido, veio só com um tema - Twilight levou o Santiago Alquimista a dançar de novo, numa apoteótica caminhada até ao fim do concerto e ao anúncio de que a banda pretende regressar em breve a Portugal!
Findo o som, a desmobilização quase imediata lembrou a muitos que, afinal, se tratava de uma noite da semana - mesmo assim, terão sido poucos os que deram por mal empregues as horas que perderam de sono na noite de Quarta-feira...

Para os que ficaram para mais uns minutos de conversa, a constatação de uma realidade: mesmo as grandes bandas podem ser modestas ao ponto arrumar o seu próprio material. E ali, à distância de uns passos, estavam de novo em palco os agentes que carregaram aquela noite de uma intensidade quase tangível...

O rapaz misterioso do boné por detrás da bateria.
O senhor que se expressa quase tão bem através das cordas da guitarra como das vocais.
A menina loura de sapato alto, voz aveludada e vestido preto.

Uma santíssima trindade (não fosse pecaminoso rotulá-los de santos)...


ALINHAMENTO (Muito obrigada Nuno!)
Hallucinations
Dead Sound
That Great Love Sound
Let's Rave On
Here Comes Mary
Lust
Red Tan
Love in a Trashcan
Attack of the Ghost Riders
My Tornado
You Want The Candy
The Beat Dies
Black Satin
Blush
Noisy Summer
French Disco
Aly, Walk With Me
------------
Twilight

28.1.08

Entre o sussurro e o falsete (Ian James + Perry Blake - Auditório de Espinho - 25.01.2008)

A noite de sexta reserva sempre algo de especial! Na última de Janeiro, orientou-se a bússola para Norte e traçou-se o destino - a cerca de cem quilómetros de Coimbra esperavam uma sala quase nova e um amigo de longa data. Os motivos que atraíram cerca de trezentas pessoas ao Auditório de Espinho terão sido os mais variados; o elemento comum entre todos, a voz de Perry Blake, a apresentar Canyon Songs, o seu sexto álbum de originais (oitavo se contarmos com a banda sonora de Presque Rien e o registo ao vivo Broken Statues).

Perry Blake

Pouco depois das 21h30m, as cadeiras preenchiam-se já com a anunciada lotação esgotada e subia a palco uma figura quase incógnita de guitarra em punho. Ian James (que, por distracção de uma qualquer editora, ainda não tem trabalho editado) encarregou-se de instalar o ambiente intimista na noite numa sala que mostrava a excelente acústica de um auditório pensado para o espectador. Um encontro entre Nick Drake e Dave Matthews, à beira de uma central nuclear: uma imagem que surgiu nas cabeças de muitos ao longo dos vinte minutos com que este singer-songwriter preencheu o palco. Músicas em torno de namoradas e cenários industriais, ternas mas alertes: o próprio avisou – “Keep off the beach” -, um conselho sábio nas águas que banham as praias da juventude de Ian James. Os vinte minutos só não souberam a pouco porque muitos havia que impacientemente esperavam a outra parte do espectáculo.

Três cadeiras e uma mesa onde se vislumbrava um computador faziam adivinhar uma formação reduzida em palco. Depois de algumas falsas entradas de Glenn Garrett para os últimos acertos, Ian James e Perry Blake surgiram de entre a escuridão de fundo do palco e tomaram as restantes duas cadeiras. O primeiro momento de aplausos da noite acolheu o irlandês que começou o desfile de canções por Forgiveness do penúltimo álbum The Crying Room. Por trás dos três músicos projectavam-se imagens e excertos da letra da música – uma sucessão de fotografias maioritariamente a preto de branco que acompanha este novo espectáculo de Perry Blake, numa versão multimédia da carreira do autor. Numa mistura perfeita entre os dois últimos registos, os cinco primeiros temas do concerto trouxeram um magnífico Freedom e um intocável These Young Dudes. O papel do computador sobre a mesa era revelado – em vez de bilhetes a cem euros e uma orquestra sinfónica a acompanhá-lo, Perry Blake usou um sucedâneo electrónico para bilhetes a dez euros. No entanto, a magia multimédia de projecção não parecia querer ajudar – os problemas que surgiram com as compatibilidades tecnológicas levaram a um intervalo improvisado para tentar resolver a questão, valendo algumas alcunhas ao computador (que parecia “precisar de uma Super Bock” segundo Perry Blake); na impossibilidade de recuperar a projecção em condições, a opção pendeu para o prosseguimento do concerto sem imagens - perdeu-se na vertente visual, ganhou-se na proximidade, que muitas vezes se traduziu em escapes humorísticos partilhados com a audiência. Muito mudou em Perry Blake desde os tempos do seu primeiro álbum homónimo, o casaco de veludo continua lá mas sobrepõe-se agora a uns jeans de bainha dobrada vestidos por uma personagem bastante mais comunicativa, com o seu constante abanar de perna. O regresso de intervalo fez-se com The Ballad of Billy Bob, enquanto alguns elementos da plateia retomavam ainda os lugares. Conquistados desde início, os espectadores puderam constatar a mudança que também se sente na sonoridade – praticamente todos os temas de Canyon Songs, um álbum mais optimista, passaram pelo concerto, sendo frequente a mistura com os temas de The Crying Room. Apesar da boa adesão a estas canções mais recentes, foi para Stop Breathing a primeira grande ovação da noite. Os primeiros álbuns dos quase dez anos de carreira não ficaram esquecidos, e Perry Blake fez questão de passar por praticamente todos – incluindo uma versão acústica da tão comercialmente conhecida Ordinary Day. Pelo meio, a tradicional apresentação, com uma curiosa comparação do irlandês a Damien Rice. Após os desaires tecnológicos do início da noite, as versões acústicas começaram a ganhar terreno no alinhamento e foi com duas guitarras ao desafio que a carga dramática de Something Still Reminds You encerrou o concerto. Ou assim se pensava…

A pedido do público, os três músicos regressaram a palco e Perry Blake “arranhou” um pouco mais de português, admitindo ser uma língua complicada. Depois, um dos momentos mais intensos da noite: Sometimes silenciou o auditório – “sometimes love is not enough” ouvia-se e parecia que nem todo o repertório de Blake chegaria à ávida plateia de Espinho. Aos muitos pedidos da assistência respondeu com uma promessa de deixar um dia destes o alinhamento à escolha no seu site. E anunciou uma canção antiga a seguir-se – voltou-se a 1998 e soaram guitarras cortadas em mais uma versão acústica, desta vez para The Hunchback of San Francisco. Um agradecimento final e mais uma saída de palco que, poucos minutos e muitos aplausos depois, se mostrou não ser a última.

Um segundo encore não previsto trouxe o primeiro desabafo sobre a proibição de fumar no auditório e mais uma música antiga – Pretty Love Songs fechou uma noite de percalços mas, acima de tudo, de entendimento e intimidade.

Porque as canções de amor são assim – podem não ser perfeitas, mas são o que nos mantém vivos!

21.1.08

A noite em que os extra-terrestres desceram ao Porto (Coldfinger + The Go! Team - Casa da Música, Porto - 19.01.2008)

The Go! Team
Bruno Raposo

Mais fotografias aqui.


Dia 19 de Janeiro de 2008, viagem Coimbra – Porto com destino a mais uma noite de "Clubbing", na Casa da Música, evento em tons cor-de-laranja, promovido por uma operadora de telemóveis.

O objectivo: assistir ao 3º concerto dos ingleses The Go! Team em Portugal, eles que tinham estado na noite anterior no Lux, em Lisboa, e no ano passado no Oeiras Alive.

Antes de subirem ao palco os rapazes e raparigas de Brighton, passaram pela Sala 2 da Casa da Música, toda forradinha a painéis vermelhos que proporcionam uma óptima acústica, os lisboetas Coldfinger de Margarida Pinto e Miguel Cardona que proporcionaram um concerto algo morno, ao som do seu último LP ‘Supafacial’, editado em 2007, após um interregno de 5 anos.

Mas quem lá estava, estava lá para outra coisa e não teve grande dificuldade em responder à pergunta/grito de abertura da MC Ninja: “Who came here to partyyyyy?!”
Se a Casa da Música é muitas vezes comparada a um OVNI, então os The Go! Team foram os seus dignos ocupantes, disparando feixes de energia sonora altamente dançável para os terráqueos que estavam à sua frente.

É difícil descrever esta banda, até porque os seus elementos saltitavam freneticamente entre todos os instrumentos, que incluíam duas baterias, (uma não chegava, pois claro!...). Mas é também impossível não nos rendermos praticamente de imediato a uma vocalista que parece que veio directa do Bronx onde estava a saltar à corda com as amigas, duas meninas com a tranquilidade tipicamente oriental (uma mais voltada para a guitarra e outra para a bateria), um outro baterista que também debitava feed-back na guitarra e se agarrava a uma gaita de beiços, um teclista com ar nórdico e com vontade de experimentar, e, finalmente, um baixista com o aspecto de quem saiu de uma série americana do final dos anos 70, ele que ao longo de todo o concerto se manteve (quase) fiel às suas 4 cordas, tendo-as apenas deixado no ‘encore’ para se dedicar de alma e coração a um xilofone.

O alinhamento (pedaço de papel muito cobiçado no final do concerto) intercalou temas dos seus dois discos, ‘Thunder, Lightning, Strike!’, de 2004 e ‘Proof Of Youth’, do ano passado, com destaque para ‘Grip Like a Vice’ e ‘Ladyflash’. Apenas ficou a faltar a muito requisitada versão de ‘Bull In The Heather’, dos Sonic Youth, que Ian Parton e Kaori Tsuchida nos negaram com um sorriso.

Os The Go! Team são, de facto, uma equipa que não sabe para onde vai... E o melhor, é que nós também não.

(Ainda uma dica, daquelas de reportagem turística para uma revista da especialidade: Não deixar escapar a oportunidade de jantar no restaurante/tasca ‘Reis & Soares’, mesmo na Rotunda da Boavista. Um local muito peculiar…)


Ricardo Jerónimo

8.11.07

À latitude sonora de Nova Iorque (Blonde Redhead + Interpol - Coliseu dos Recreios - 07.11.2007)

À hora marcada, já o Coliseu estava repleto e expectante. Há alguns dias que se sabia: a lotação estava esgotada, era imperativo chegar cedo!

A hora marcada eram as 21h, momento em que, pontualmente, os Blonde Redhead se estrearam em solo nacional. Coube-lhes aquecer a sala (como se fosse possível suportar ainda mais calor que o que se fazia sentir na sala lisboeta). Na plateia, bastantes fãs da banda de Kazu Makino e dos irmãos Pace aqueciam as gargantas entoando os 45 minutos de actuação da banda nova-iroquina. Para os mais desatentos, aquele trio em palco mostrou que não anda por aí há um par de anos apenas e que, mesmo sendo a banda de "aquecimento", conseguem dar um espectáculo digno de cabeça de cartaz. Os temas do mais recente 23 foram desfilando pelo Coliseu, mas também algumas das mais antigas composições dos Blonde Redhead fizeram agitar a turba que já se aglomerava junto à grade. Em palco, suor, guitarras, energia! Do lado esquerdo dele, Paul Banks e Samuel Fogarino espreitavam a actuação dos Blonde Redhead - ou seria o mini-vestido de Kazu Makino? Os três quartos de hora deixaram no ar o desejo de ver de novo este trio num concerto em nome próprio...

Numa noite de latitudes sonoras similares, os cerca de quinze minutos de intervalo entre as duas bandas serviram apenas para que a mole humana se encaixasse no cada vez mais claustrofóbico espaço do Coliseu. Acenderam-se os primeiros cigarros e o ar foi-se tornando mais denso à medida que se esperava o baixar de luzes que anunciasse o regresso dos Interpol.

E foi ao som de Pioneer To The Falls que Paul Banks, Samuel Fogarino, Carlos Dengler e Daniel Kessler tomaram de assalto o palco. Grande parte do concerto foi dedicado ao mais recente Our Love To Admire, com os três primeiros singles (Heinrich Maneuver, Mammoth e No I In Threesome) a arrancarem energéticas reacções do público. Menção honrosa no capítulo "Our Love To Admire" ainda para Rest My Chemistry e o absoluto The Lighthouse. Os maiores momentos estavam, no entanto, reservados para os temas que criaram todo o culto em torno da banda de Antics e Turn On The Bright Lights.
Os hinos dos primeiros álbuns dos Interpol foram entoados quase em uníssono - arrepiantes Evil, C'mere, Not Even Jail ou Say Hello To The Angels. Não haja dúvidas - mesmo que Our Love To Admire não seja do melhor que os Interpol já fizeram, as memórias destas e outras músicas mantêm bem perto a legião de fãs.
Mas a grande surpresa estava revelada para o único encore: de seguida e de raspão, a banda arranca os melhores momentos da noite, mais uma vez recorrendo aos temas consagrados. A plateia esgotada do Coliseu entusiasmou-se com Take You On A Cruise e Stella Was a Diver and She Was Always Down, mas foi PDA que levou a multidão a um estado de euforia, em saltos convulsos em direcção ao final das quase duas horas de concerto.

Soube a pouco? Para alguns faltaram temas míticos (alguém clamava por NYC), mas não se esgota num concerto todo o catálogo impressionante que os Interpol conseguiram com três álbuns.

De Lisboa a Nova Iorque segue-se em linha recta numa mesma latitude - um caminho que muitos esperam ver tanto Interpol como Blonde Redhead fazerem de novo!